quarta-feira, 24 de julho de 2013

"O governo quebrou o corporativismo da classe médica"


O governo Dilma lançou recentemente o programa “Mais Médicos” que visa a contratação de médicos brasileiros e estrangeiros para atuarem nas periferias das grandes cidades e nos interiores brasileiros. 


A classe médica brasileira reagiu. Criticou duramente o programa. Não aceita a contratação de profissionais médicos nos parâmetros estabelecidos na proposta. Muito debate e discussões tomaram conta do processo. Uma queda de braço entre governo e Conselho Federal de medicina. 

Vamos aos fatos: há claramente falta de médicos no Brasil. Isso é fato. Não se discute. A relação médico por habitante é baixa. Ficamos atrás de muitos países ao redor do mundo, inclusive dos nossos vizinhos. 
Por conta desse cenário caótico da falta de profissionais, o governo adotou medida emergencial: contratar para suprir essas necessidades. Segundo o ministro da saúde, Alexandre Padilha em palestra proferida em Belém está semana, afirmou que há 700 municípios sem a prestação do atendimento básico para a população. O programa visa atacar essa carência explicita e vergonhosa.
Ao médico que se escrever o governo lhe proporcionará: salário de 10 mil reais (líquido); especialização em universidade pública federal; 30 mil reais de auxílio-deslocamento; direitos previdenciários pagos pelo Ministério da Saúde. Isso não agradou aos médicos, ou pelo menos a maioria. 
No meu entendimento falta maior esclarecimento aos “doutores”. Sobre os médicos estrangeiros, esses só poderão trabalhar com a sua revalidação e ocupar vaga só quando profissionais brasileiros não puderem ou quiserem assumir.
Outro ponto diz respeito a falta de estrutura dos hospitais e postos de saúde. Isso é uma verdade. A classe médica alega que de pouco adiante o médico está presente no local, mas sem condições de atendimento. Nesse ponto não há o que discordar. O Ministério da Saúde sabe disso e divulgou um amplo programa de reestruturação da infraestrutura hospitalar no Brasil. O investimento é da ordem 7,8 bilhões de reais. 
A questão escancara o corporativismo da classe médica no Brasil. Acostumada a privilégios e a falta de cobrança ou questionamentos. Outro ponto é a falta de humanização desses profissionais.
Conheço secretários municipais de saúde que oferecem até 30 mil reais por um médico, além de hotel, alimentação, passagem aérea e mesmo assim não querem. Ou quando aceitam, tratam logo de aumentar as exigências. Tornam-se verdadeiros “marajás”, rodeados pela pobreza. Os prefeitos precisam fazer malabarismo orçamentário para pagar esses profissionais.

Não estou aqui e nem pretendo questionar o valor pago a um médico. O profissional deve ganhar bem, tem ótimos rendimentos. Mas se negar a atender por 30 mil reais, penso ser uma atitude reprovável. Parece comercializar puramente a sua mão de obra, inflá-la pela necessidade e falta de concorrência. 
A questão que a classe médica brasileira tem sobrenome. Tem perfil elitista. A grande maioria vem da classe média, ou de família rica. Acostumaram-se aos privilégios. E não há problema nisso. Em ser classe média ou pertencer a elite. Ninguém tem culpa de nascer em um lar privilegiado de recursos financeiros. A questão é a responsabilidade social que a profissão exige. A revolta da classe é que o governo Dilma foi o primeiro a quebrar essa lógica imperativa e de alto custo no Brasil. De abrir concorrência, de baixar os estratosféricos valores cobrados pelo exercício da profissão. Cobrar 30 mil reais e um monte de regalia para clinicar em um município miserável é se utilizar da carência e pobreza para inflar, faturar em cima de quem mais precisa. 
Trata há anos da questão da humanização da saúde. Tenho amigos médicos. Convivo com alguns. O grande problema da saúde pública brasileira é atenção básica. Faltam profissionais para exercer esse tipo de atendimento, muito importante e que ajuda a prevenir problemas maiores. 
Hoje a maioria dos médicos seguem o seguinte formato profissional: se formam, fazem residência médica e logo em seguida especializações para clinicar no setor privado ou em seu próprio consultório. Não reprovo esse tipo de atitude, de escolha. Mas e a atenção básica? Faltam atendimentos. Por isso o programa.


Na verdade o que ocorre é que o corporativismo da classe médica brasileira, pela primeira vez foi enfrentada, questionada, colocada em xeque e cobrada. Não se trata de colocar a culpa do caos da saúde pública sob os médicos. A proposta é levar saúde a quem precisa. Se não por um médico brasileiro, será por um estrangeiro.  
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