sábado, 15 de outubro de 2011

A imprensa brasileira é hipocondríaca

Opinião:
Não é preciso analisar com cuidado, refletir demoradamente ou ser um observador vigilante para se chegar à conclusão de que a imprensa brasileira é hipocondríaca. Certamente, não é difícil também encontrar bons argumentos para justificar esta afirmativa.


Em primeiro lugar, é absolutamente verdade que a mídia privilegia sempre, em sua cobertura, a doença, relegando a saúde a um plano inferior. Na prática, o que interessa (o que aumenta a audiência, dá Ibope ou vende jornais e revistas) é revelar as novas moléstias que assolam o mundo, muitas vezes valendo-se do sensacionalismo midiático para chamar a atenção da audiência e de quebra aumentar exponencialmente o lucro de laboratórios inescrupulosos. Foi isso exatamente o que aconteceu durante a divulgação da chamada gripe suína e de que resultou, por parte de Governos, inclusive o nosso, uma aquisição descontrolada de medicamentos (nem sempre eficazes) para a alegria de farmacêuticas que, ao que parece, estavam esperando esse momento para incrementar as suas vendas. É isso que acontece todo ano, quando se anuncia uma nova epidemia de dengue (vem outra por aí?), quando a indústria da saúde avança sobre a mídia para vender analgésicos para cidadãos alarmados e pouco esclarecidos, mesmo sabendo dos efeitos colaterais terríveis (e até mortais) que eles podem causar.


O aviso chega por todos os veículos, inclusive agora pelas redes sociais: cuidado, você vai ficar impotente, entrará em depressão e poderá ser a próxima vítima da hepatite C. Desconfortos normais (os velhos tendem a ficar cansados ou a enxergar menos, quem trabalha muito tem mesmo estresse e todo mundo algum dia terá uma dor de cabeça) são vistos como sintomas de terríveis patologias e, o que é pior, a impressão que fica é que a culpa é sempre de quem está doente. Se você tivesse ido ao médico, se tivesse tomado um remedinho...


Em segundo lugar, não é raro perceber que a imprensa tem uma fórmula pronta (absolutamente inadequada) para resolver os problemas de saúde: a prática da medicalização e o uso de equipamentos sofisticados para diagnóstico e tratamento.


Para crianças hiperativas ou para perda do namorado, Prozac; para aumentar o poder de fogo dos "machos": Viagra. De quebra, um analgésico e um antibiótico (se possível, de primeira geração) para afastar dores de cabeça e possíveis infecções. Chega-se ao cúmulo de incentivar o uso de medicamentos para evitar doenças potenciais e aí entra toda a propaganda das vitaminas e complementos minerais. A idéia é tomar remédio antes, para não ter que tomar remédio depois. Baseada nesta perspectiva equivocada, os meios de comunicação também fazem a apologia da tecnologia médica, como se a cura estivesse associada, necessariamente, à tomografia computadorizada ou aos exames laboratoriais. As revistas de prestígio abrem capas para soluções mágicas, incorporando novos estímulos à automedicação, certamente pautadas por fontes externas (laboratórios em particular) que desejam vender mais (muito mais) e não esclarecer adequadamente a população.


Em terceiro lugar, assistimos a uma ação agressiva de profissionais de saúde, que buscam a todo custo promover-se na mídia, com o objetivo explícito de angariar novos pacientes. Neste sentido, são competentes os programas dedicados à mulher e que povoam a televisão brasileira, notadamente os exibidos nos períodos matutino e vespertino, com entrevistas cordiais de médicos e terapeutas, ávidos por divulgarem novos produtos e novos processos. As madrinhas da TV e alguns padrinhos com imensos narizes e bigodes introduzem ou incluem em seus programas anúncios de remédios ou equipamentos milagrosos, como as cintas eletrônicas que reduzem as gordurinhas da barriga, as barbatanas de tubarão e até as famosas dietas da USP (que necessariamente não as indica ou mesmo sabe da sua existência).


Em quarto lugar, a imprensa destaca os novos gurus, responsáveis por terapias alternativas e que, apoiados em teorias estapafúrdias, atraem milhares de incautos aos seus consultórios.


Sob este aspecto, multiplicam-se as notícias sobre o poder de determinadas plantas (é lógico que algumas têm mesmo, comprovadamente, efeito positivo em determinadas patologias), a eficácia (piada sem graça) do cogumelo do sol contra o câncer (a imprensa continua ignorando que há muitas formas de câncer e que elas requerem tratamentos distintos), além das intermináveis apologias à cromoterapia, ao magnetismo, às mandalas de todo tipo etc.


Finalmente, a imprensa não consegue enxergar além da notícia e por isso não consegue perceber os lobbies poderosos que constrangem a produção e a divulgação da ciência e as relações espúrias entre entidades, profissionais de saúde e interesses empresariais.


Ela apologiza as experiências clínicas e não percebe a utilização condenável do ser humano como cobaia médica, ela divulga resultados de pesquisa sem atentar para a interferência abusiva daqueles que a promovem ou patrocinam. Sob este aspecto, a imprensa é hipondríaca e cega e, como diz o ditado, o pior cego é aquele que não quer enxergar.


A imprensa ignora a cumplicidade de sociedades ou entidades profissionais ou científicas que sempre cobraram uma grana para imprimir um selinho de qualidade em produtos de todos os tipos (margarinas, equipamentos, remédios etc) e nunca se deu conta de que elas assinam campanhas publicitárias de farmacêuticas para legitimar medicamentos, muitos depois recolhidos do mercado pelos danos enormes causados àqueles que os consumiram.


Evidentemente, ninguém desconhece a necessidade de chamar a atenção das pessoas para as doenças, mas isso deve ser feito de maneira responsável, tendo em vista o interesse público e não a ganância privada. É evidente que não estamos propondo jogar fora todos os medicamentos, mas seria inteligente promover apenas aqueles que servem para alguma coisa. A controvérsia sobre os emagrecedores (meus cumprimentos à ANVISA que tem batido de frente contra a indústria da saúde), sobre a reposição hormonal, sobre as vantagens dos suplementos vitamínicos (quer dizer que a vitamina E pode prejudicar e não favorecer a prevenção do câncer de próstata, como farmacêuticas e especialistas andavam dizendo por aí?) mostram que o terreno é nebuloso e que é perigoso ir com muita sede ao pote.


Socialmente, é injusto imaginar e divulgar que apenas os recursos sofisticados permitem resolver os problemas da saúde no Brasil. O número de doenças provocadas pela falta de higiene e saneamento (que tal cuidarmos da qualidade da água que bebemos e damos aos nossos filhos?), pela conservação indevida dos alimentos, pela armazenagem imprópria e manuseio sem proteção de produtos tóxicos (as vítimas dos agrotóxicos neste país de vocação agrícola se contam aos milhares) , pela alimentação inadequada (quantas crianças obesas e, ao mesmo tempo, desnutridas) indicam que há muito a se fazer. Sobretudo, apontam para um papel fundamental dos meios de comunicação: a educação para a saúde.


A imprensa precisa, definitivamente, como dizia a campanha de TV de uma montadora, rever os seus conceitos. Está na hora de apostar na saúde, na prevenção, no esclarecimento.


Se o sistema de produção jornalística torna veículos e programas hipocondríacos, a saída, para os jornalistas, é abrir o olho. Nesse sentido, uma dica essencial: desconfie dos releases, das grandes descobertas, das soluções miraculosas, dos sorrisos dos executivos da indústria da saúde que andam "papagaiando" em coletivas com direito a brindes e almoços fartos. Suspeite de pesquisas encomendadas para ludibriar a opinião pública e que circulam livremente, proclamando as vantagens de medicamentos.


É bom lembrar que os emagrecedores engordam a conta de farmacêuticas, farmácias de manipulação e de clínicas/ profissionais de saúde e podem ser totalmente ineficazes para os pacientes. É importante não esquecer que o tabaco responde por milhões de doentes e mortes em todo o mundo e que o fato de empregar muita gente não o torna menos nefasto para a nossa qualidade de vida.


Se continuarmos acreditando no que a imprensa e os interesses que a financiam andam dizendo sobre a nossa saúde, ficaremos realmente doentes. Para não ter dor de cabeça, depressão ou impotência, o melhor remédio, além de hábitos saudáveis, é suspeitar, desconfiar sempre daqueles, por qualquer motivo, nos indicam xaropes, comprimidos ou cápsulas mágicas. Mesmo que seja a sua mãezinha querida, o seu melhor amigo ou a comadre bem informada. Lembre-se de que talvez a indústria da saúde já tenha feito a cabeça deles.


Você pode não saber, mas acredite: as farmacêuticas são mais competentes para realizar ações de propaganda/marketing do que para produzir remédios que funcionam. Se tiver um tempinho, leia A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, de Márcia Angell. Vai descobrir porque você deve acreditar menos no que eles dizem e (ufa) terá grandes chances de se tornar menos hipocondríaco do que a imprensa nacional.


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