sábado, 5 de março de 2011
O Brasil é maior que a França e a Inglaterra. Bye-bye Serra forever
Do Conversa Afiada
O Governo Lula incorporou 50 milhões de brasileiros ao mercado de consumo.
A classe C foi a que mais cresceu.
Tem hoje 104 milhões de pessoas.
A capacidade de consumo da classe C é de 500 bilhões de reais por ano.
A classe C é aquela com uma renda mensal entre mil reais e cinco mil reais.
A classe D tem um poder de consumo de 380 bilhões de reais.
50 milhões de pessoas incorporadas à classe C é o mesmo que dizer que uma Argentina, somada a um Chile, compõe a classe C.
O PIB deve crescer este ano 7%.
Será o maior crescimento anual do PIB dos últimos 24 anos.
O crescimento do PIB de 7% fará com que a economia brasileira seja maior que a da Inglaterra e também a da França.
Na Europa, só a Alemanha ainda é maior que o Brasil.
No ano que vem, a economia brasileira crescerá 5,5%.
Essas são informações que Guido Mantega, Ministro da Fazenda, deu hoje à Fátima Turci e Paulo Henrique Amorim, que serão veiculadas hoje e amanhã na Record News.
O Brasil hoje tem 260 bilhões de dólares de reservas cambiais e dívidas de 220.
Paulo Henrique Amorim
Artigos Relacionados
"Os meios de informação são sujeitos políticos, não servidores da política"
Revista Fórum:
"Por que a grande mídia mente e a mídia alternativa se confunde
Os meios de comunicação de massa nunca estão com os povos, mas os olham, os observam..., às vezes com estranhamento, às vezes com paternalismo, outras com preocupação. Quando devem transmitir as mensagens que os povos gritam e que não podem ser caladas, é necessário que estas sejam pasteurizadas e esterilizadas para o consumo de um público ao qual eles buscam proteger da contaminação.
Por Ángeles Diez
[03 de março de 2011 - 11h16]
Os meios de comunicação de massa, isto é sabido, são parte da estratégia das guerras. Desde que a política se transformou em uma guerra por novos meios – cabe aqui o aforismo “clausewitzchiano” – deixaram de existir os meios de informação. Os meios de comunicação em massa são corporações – grupos de empresas interconectados e especializados – de modo que não é possível que sigamos tratando-os como “quarto poder”, “expressão da opinião pública”, “guardiões da democracia” etc. Eles são o poder em uma de suas múltiplas faces. Dizer que os meios têm donos é uma obviedade, mas deixar de explicitá-la é correr o risco de naturalizar sua essência até fazê-la desaparecer.
Os meios de massa têm suas rotinas e uma maquinaria perfeitamente engraxada para mover-se dentro da complexidade. Por isso basta pagar aos jornalistas para que façam seu trabalho e, na maior parte das vezes, eles sabem fazer seu trabalho e não causam muitos problemas. Tais meios têm, necessariamente, uma opinião, e desde que as novas tecnologias destruíram o tempo, cada vez têm menos tempo para formá-la, de maneira que deixam seus profissionais se guiarem por sua pouca intuição e seu grande desconhecimento. Quando ocorre um feito noticiável não é mais necessário sacar o gravador ou o celular e converter a qualquer cidadão em correspondente improvisado enquanto se compra a passagem de avião e se criam as condições para que se esteja presente no local dos fatos. Haverá tempo para aperfeiçoar o projeto. Em tempos convulsivos as precauções são extremas e são postas a prova as competências dos oradores à distância, como orientar os discursos improvisados: “Diga-nos, por favor, o que está acontecendo agora... (obviamente algo acontece)”, “Há feridos? O que é que o povo reivindica?”.
Os jornalistas não são maquiavélicos, nem mesmo se posicionam, somente fazem seu trabalho. Mesclam as palavras: revoltas, revoluções, transições, ditadores, ordem, violência, insurgentes, revolucionários. Ritualizam a linguagem para torná-la imune à contradição: democracia (imposta), liberdade (concedida), ordem (coerciva); localizam os “fast thinking”: opinadores habituais e especialistas com pedigree que carimbam a marca de autoridade da qual carecem os meios. A ritualização incorpora esta parte da naturalização que nos impossibilita perceber os limites do nosso próprio pensamento, o que nos pertence de fato e o que absorvemos sem nos darmos conta. Os meios de comunicação em massa se especializam na cozinha conceitual, um pouco de tudo, exótica e fascinante, mas em verdade escassamente nutritivo. Disse Chomsky, recolhendo palavras do norte-americano W. Lippmann: “Deve-se pôr o público em seu lugar, de modo que possamos viver livres do pisoteio e do rugido de uma multidão desnorteada”. O lugar do público é o de espectador interessado, nunca de participante. Temos que orientar seus interesses.
Os meios de informação são sujeitos políticos, não servidores da política. Por isso é ingênuo pensar que alguma vez informaram o que realmente acontece na esfera política. Eles são a parte da política que se encarrega de nossas mentes. Desde que está malvisto nos sistemas contemporâneos o uso da coação e cada cidadão pode dizer o que quiser, é imprescindível que este cidadão diga aquilo que é correto. “A propaganda moderna é a tentativa consequente e duradoura de criar ou dar forma aos acontecimentos com o objetivo de influir sobre as relações do público com uma empresa, ideia ou grupo” disse o publicista Bernays (sobrinho de S. Freud).
Os meios de comunicação de massa nunca estão com os povos, mas os olham, os observam..., às vezes com estranhamento, às vezes com paternalismo, outras com preocupação. Quando devem transmitir as mensagens que os povos gritam e que não podem ser caladas, é necessário que estas sejam pasteurizadas e esterilizadas para o consumo de um público ao qual eles buscam proteger da contaminação. O fator tempo joga a princípio a favor do povo, mas só a um curto, muito curto prazo: “estourou a revolução no mundo árabe”, “o ditador caiu”, dizem os noticiários pela manhã; “a revolta triunfou”, “é hora de organizar a transição”, dizem à noite. Retiram-se as palavras e se recompõe a ordem do discurso. As reivindicações dos povos são traduzidas para os espectadores ávidos por informação. Na nova ordem linguística, o povo sempre tem razão, é claro, mas parte desta razão foi suprimida. Os meios de massa nunca mentem, de vez em quando reconhecem que estavam equivocados, mas sempre contam parte da verdade. A verdade adequada.
Nem todas as verdades são adequadas ou convenientes, e, por isso, o tempo pós-acontecimento é fundamental para selecionar a verdade conveniente. Controlar o tempo é controlar a memória. Parecido com o que fazem os ilusionistas, os meios de massa necessitam que a atenção seja desviada, que não se perceba o truque, rapidez para trocar a pomba pela lebre, ou o contrário. Onde havia um presidente, coloquemos um ditador, onde havia fundamentalistas ponhamos o povo e onde já há o povo, coloquemos o cidadão.
Os meios alternativos são diferentes. Às vezes se equivocam, é verdade, mas as boas intenções lhes salvam do inferno dos malvados. Cometem outros pecados: aspiram a ser meios de comunicação de massa. Aparentemente não pode haver mal nisto. Buscam espaço onde não há espaço e para encontrá-lo buscam a diferença. Em que consiste a diferença?
O problema é que eles tampouco têm tempo, e, ainda que acreditem ter a mesma urgência, têm menos tempo ainda que os meios massivos porque não são empresas e não dependem do dinheiro, não produzem mercadorias. Os jornalistas alternativos são livres porque realmente não são jornalistas, mas estão atados pelos trabalhos que lhes dão de comer e roubam o tempo para se informar. Os meios massivos são proprietários do tempo da informação. Se os meios alternativos visam competir neste terreno, perdem eficácia no campo da vida. Eles necessitam encontrar seus tempos para evitar o risco de criar mercadorias.
Têm, no entanto, uma vantagem qualitativa. Eles estão a pé pelas ruas, são parte do povo, e quando se trata de falar do povo, ninguém mais próximo do que eles. Esta proximidade os leva a certa confusão, e confundem o que fazem com o que são. Os meios alternativos: mediam ou são? Confundem-se com o povo e creem ser povo. Quando este povo ainda não está articulado, quando não consegue, entretanto, implantar seus canais de interlocução, quando a revolução está em marcha... os meios alternativos, em seu desejo legítimo de ajudar os processos, podem converter-se em criadores de ilusão e confundir seus desejos com “a voz do povo”. Moralmente são impecáveis, politicamente são inofensivos.
Os meios alternativos dão conselhos aos políticos, mas é uma lástima que o poder não necessite de conselhos e que os governos afins não sejam tão livres quanto os meios alternativos para prescindir de seus compromissos de governo ou prevenir os riscos para seus próprios povos. Os meios alternativos, para serem sujeitos políticos, teriam que ser organizações e/ou estar a serviço de organizações. Difícil acreditar que de forma natural sejam órgãos da massa dispersa e espontânea. Orientar-se na complexidade do real não é fácil e se não se chega a tempo... De quê? E se não se toma posições... Quê? Os povos têm outros tempos e leva tempo para se fazer a revolução.
Os meios alternativos não definem o campo de batalha. Batalham em um campo pré-definido. Seu prestígio e capacidade transformadora passam pelo compromisso com os povos e suas organizações, passa por ir se convertendo em uma parte a mais e indivisível dos povos em luta, capazes de definir estratégias, romper com as lógicas dos meios de massa, marcar seus próprios tempos e definir com responsabilidade o campo de batalhar, fazer política e ser, em definitivo, politicamente alternativos.
Tradução de Cainã Vidor. Publicado por Rebelión. Foto por http://www.flickr.com/photos/gusdrinks/.
– Enviado usando a Barra de Ferramentas Google"
"Por que a grande mídia mente e a mídia alternativa se confunde
Os meios de comunicação de massa nunca estão com os povos, mas os olham, os observam..., às vezes com estranhamento, às vezes com paternalismo, outras com preocupação. Quando devem transmitir as mensagens que os povos gritam e que não podem ser caladas, é necessário que estas sejam pasteurizadas e esterilizadas para o consumo de um público ao qual eles buscam proteger da contaminação.
Por Ángeles Diez
[03 de março de 2011 - 11h16]
Os meios de comunicação de massa, isto é sabido, são parte da estratégia das guerras. Desde que a política se transformou em uma guerra por novos meios – cabe aqui o aforismo “clausewitzchiano” – deixaram de existir os meios de informação. Os meios de comunicação em massa são corporações – grupos de empresas interconectados e especializados – de modo que não é possível que sigamos tratando-os como “quarto poder”, “expressão da opinião pública”, “guardiões da democracia” etc. Eles são o poder em uma de suas múltiplas faces. Dizer que os meios têm donos é uma obviedade, mas deixar de explicitá-la é correr o risco de naturalizar sua essência até fazê-la desaparecer.
Os meios de massa têm suas rotinas e uma maquinaria perfeitamente engraxada para mover-se dentro da complexidade. Por isso basta pagar aos jornalistas para que façam seu trabalho e, na maior parte das vezes, eles sabem fazer seu trabalho e não causam muitos problemas. Tais meios têm, necessariamente, uma opinião, e desde que as novas tecnologias destruíram o tempo, cada vez têm menos tempo para formá-la, de maneira que deixam seus profissionais se guiarem por sua pouca intuição e seu grande desconhecimento. Quando ocorre um feito noticiável não é mais necessário sacar o gravador ou o celular e converter a qualquer cidadão em correspondente improvisado enquanto se compra a passagem de avião e se criam as condições para que se esteja presente no local dos fatos. Haverá tempo para aperfeiçoar o projeto. Em tempos convulsivos as precauções são extremas e são postas a prova as competências dos oradores à distância, como orientar os discursos improvisados: “Diga-nos, por favor, o que está acontecendo agora... (obviamente algo acontece)”, “Há feridos? O que é que o povo reivindica?”.
Os jornalistas não são maquiavélicos, nem mesmo se posicionam, somente fazem seu trabalho. Mesclam as palavras: revoltas, revoluções, transições, ditadores, ordem, violência, insurgentes, revolucionários. Ritualizam a linguagem para torná-la imune à contradição: democracia (imposta), liberdade (concedida), ordem (coerciva); localizam os “fast thinking”: opinadores habituais e especialistas com pedigree que carimbam a marca de autoridade da qual carecem os meios. A ritualização incorpora esta parte da naturalização que nos impossibilita perceber os limites do nosso próprio pensamento, o que nos pertence de fato e o que absorvemos sem nos darmos conta. Os meios de comunicação em massa se especializam na cozinha conceitual, um pouco de tudo, exótica e fascinante, mas em verdade escassamente nutritivo. Disse Chomsky, recolhendo palavras do norte-americano W. Lippmann: “Deve-se pôr o público em seu lugar, de modo que possamos viver livres do pisoteio e do rugido de uma multidão desnorteada”. O lugar do público é o de espectador interessado, nunca de participante. Temos que orientar seus interesses.
Os meios de informação são sujeitos políticos, não servidores da política. Por isso é ingênuo pensar que alguma vez informaram o que realmente acontece na esfera política. Eles são a parte da política que se encarrega de nossas mentes. Desde que está malvisto nos sistemas contemporâneos o uso da coação e cada cidadão pode dizer o que quiser, é imprescindível que este cidadão diga aquilo que é correto. “A propaganda moderna é a tentativa consequente e duradoura de criar ou dar forma aos acontecimentos com o objetivo de influir sobre as relações do público com uma empresa, ideia ou grupo” disse o publicista Bernays (sobrinho de S. Freud).
Os meios de comunicação de massa nunca estão com os povos, mas os olham, os observam..., às vezes com estranhamento, às vezes com paternalismo, outras com preocupação. Quando devem transmitir as mensagens que os povos gritam e que não podem ser caladas, é necessário que estas sejam pasteurizadas e esterilizadas para o consumo de um público ao qual eles buscam proteger da contaminação. O fator tempo joga a princípio a favor do povo, mas só a um curto, muito curto prazo: “estourou a revolução no mundo árabe”, “o ditador caiu”, dizem os noticiários pela manhã; “a revolta triunfou”, “é hora de organizar a transição”, dizem à noite. Retiram-se as palavras e se recompõe a ordem do discurso. As reivindicações dos povos são traduzidas para os espectadores ávidos por informação. Na nova ordem linguística, o povo sempre tem razão, é claro, mas parte desta razão foi suprimida. Os meios de massa nunca mentem, de vez em quando reconhecem que estavam equivocados, mas sempre contam parte da verdade. A verdade adequada.
Nem todas as verdades são adequadas ou convenientes, e, por isso, o tempo pós-acontecimento é fundamental para selecionar a verdade conveniente. Controlar o tempo é controlar a memória. Parecido com o que fazem os ilusionistas, os meios de massa necessitam que a atenção seja desviada, que não se perceba o truque, rapidez para trocar a pomba pela lebre, ou o contrário. Onde havia um presidente, coloquemos um ditador, onde havia fundamentalistas ponhamos o povo e onde já há o povo, coloquemos o cidadão.
Os meios alternativos são diferentes. Às vezes se equivocam, é verdade, mas as boas intenções lhes salvam do inferno dos malvados. Cometem outros pecados: aspiram a ser meios de comunicação de massa. Aparentemente não pode haver mal nisto. Buscam espaço onde não há espaço e para encontrá-lo buscam a diferença. Em que consiste a diferença?
O problema é que eles tampouco têm tempo, e, ainda que acreditem ter a mesma urgência, têm menos tempo ainda que os meios massivos porque não são empresas e não dependem do dinheiro, não produzem mercadorias. Os jornalistas alternativos são livres porque realmente não são jornalistas, mas estão atados pelos trabalhos que lhes dão de comer e roubam o tempo para se informar. Os meios massivos são proprietários do tempo da informação. Se os meios alternativos visam competir neste terreno, perdem eficácia no campo da vida. Eles necessitam encontrar seus tempos para evitar o risco de criar mercadorias.
Têm, no entanto, uma vantagem qualitativa. Eles estão a pé pelas ruas, são parte do povo, e quando se trata de falar do povo, ninguém mais próximo do que eles. Esta proximidade os leva a certa confusão, e confundem o que fazem com o que são. Os meios alternativos: mediam ou são? Confundem-se com o povo e creem ser povo. Quando este povo ainda não está articulado, quando não consegue, entretanto, implantar seus canais de interlocução, quando a revolução está em marcha... os meios alternativos, em seu desejo legítimo de ajudar os processos, podem converter-se em criadores de ilusão e confundir seus desejos com “a voz do povo”. Moralmente são impecáveis, politicamente são inofensivos.
Os meios alternativos dão conselhos aos políticos, mas é uma lástima que o poder não necessite de conselhos e que os governos afins não sejam tão livres quanto os meios alternativos para prescindir de seus compromissos de governo ou prevenir os riscos para seus próprios povos. Os meios alternativos, para serem sujeitos políticos, teriam que ser organizações e/ou estar a serviço de organizações. Difícil acreditar que de forma natural sejam órgãos da massa dispersa e espontânea. Orientar-se na complexidade do real não é fácil e se não se chega a tempo... De quê? E se não se toma posições... Quê? Os povos têm outros tempos e leva tempo para se fazer a revolução.
Os meios alternativos não definem o campo de batalha. Batalham em um campo pré-definido. Seu prestígio e capacidade transformadora passam pelo compromisso com os povos e suas organizações, passa por ir se convertendo em uma parte a mais e indivisível dos povos em luta, capazes de definir estratégias, romper com as lógicas dos meios de massa, marcar seus próprios tempos e definir com responsabilidade o campo de batalhar, fazer política e ser, em definitivo, politicamente alternativos.
Tradução de Cainã Vidor. Publicado por Rebelión. Foto por http://www.flickr.com/photos/gusdrinks/.
– Enviado usando a Barra de Ferramentas Google"
sexta-feira, 4 de março de 2011
Comer é verbo e não substantivo: mercado ou soberania alimentar?
Da Carta Maior
Em meados de fevereiro, o Banco Mundial comunicou que devido ao incremento nos preços da comida, o número de famintos estava se aproximando do 1 bilhão, quando os últimos dados da FAO falavam em 925 milhões. Outras 44 milhões de pessoas estão atravessando a fronteira da extrema pobreza porque suas débeis economias familiares foram desestabilizadas pelos preços elevados da comida. A situação é gravíssima, mas os preços seguem aumentando e, em uma economia globalizada, fenômenos climáticos locais – tempestades na África, geadas no México, secas na China, etc. – se convertem em um quebra-cabeças mundial. O artigo é de Vicent Boix.
Vicent Boix – Belianís
“Entre 2010 e 2011, os preços dos alimentos bateram recordes por sete meses consecutivos (...) Os aumentos nos preços dos produtos básicos se converteram em um fator desestabilizador da economia mundial, provocando tensões e distúrbios em vários países em desenvolvimento e, mais recentemente, na Argélia, Tunísia e Egito”. As afirmações são do Parlamento Europeu em uma resolução aprovada no dia 17 de fevereiro, que acrescentou: “...os altos preços dos alimentos lançam milhões de pessoas na insegurança alimentar e ameaçam a segurança alimentar mundial no longo prazo” (1).Diante desta nova e trágica crise alimentar, repete-se uma e outra vez que a causa principal da alta dos preços é um desequilíbrio entre uma menor oferta e uma maior demanda em nível mundial, ou seja, cada vez se exigem mais cultivos e este ano os rendimentos foram piores. Mas, em um artigo anterior (2) indiquei que durante os anos 2003-2004 a situação em nível mundial quanto à quantidade de alimentos básicos como os cereais tinha sido pior que a de 2007 até agora. Contrariamente e tomando como referência o “Índice para os Preços dos Alimentos”, utilizado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), os preços em 2003-2004 foram cerca de 50% inferiores em comparação com os da crise de 2008 e 100% inferiores em relação a janeiro de 2011.
Portanto, algo está manipulando e alterando os mercados e esse algo é a especulação que, segundo o Parlamento Europeu, é a culpada por 50% dos aumentos recentes. A própria FAO reconhece que só 2% dos contratos de futuros termina com a entrega da mercadoria e a maioria é negociada novamente, por isso “...esse tipo de contratos atraem um número cada vez maior de especuladores financeiros e investidores, já que seus lucros podem ser mais atrativos em relação a como se comportam os de ações e bônus” (3).
O problema não é de escassez ou de uma menor oferta de alimentos, como se diz sem parar, mas sim de alguns preços inflados por especuladores como constata a Eurocâmara em uma resolução anterior: “...na atualidade, o fornecimento total mundial de alimentos não é insuficiente (...) é mais a inacessibilidade dos mesmos e seus elevados preços os fatores que privam muitas pessoas da segurança alimentar” (4).
No entanto, a especulação, causadora das altas de preços, não é propriamente a raiz do problema. Ela deveria ser freada, mas os preços dos alimentos seguiriam sujeitos aos movimentos da oferta e da demanda, em uma época na qual cresce o interesse por agrocombustíveis e as grandes transnacionais controlam os diferentes níveis da cadeia alimentar.
Ou seja, enquanto as nações marginalizarem sua autossuficiência e a panaceia for comprar alimentos básicos no grande supermercado global, ao mesmo tempo em que se exporta para esse mercado matérias primas e cultivos exóticos (soja para pastagem, algodão, plátanos, flores, pinus, café, milho para etanol, etc.), a alimentação seguirá sujeita à dinâmica de um mercado manejado por certos polvos que pouco entendem de fome.
Não se diz com isso que podemos prescindir do mercado internacional, mas é vital sus regularização e, sobretudo, que as nações priorizem sua soberania alimentar entendida como a faculdade dos povos e dos agricultores de decidir suas políticas agrárias para garantir a segurança alimentar. Nos tempos que correm talvez seja uma heresia, mas curiosamente, no mesmo comunicado de imprensa em que a FAO há pouco anunciava que os preços dos alimentos tinham alcançado um recorde histórico, um economista desta instituição indicava que “o único fator alentador até o momento provém de um certo número de países nos quais – devido a boas colheitas – os preços domésticos de alguns alimentos básicos permanecem baixos comparando-se com os preços mundiais (5).
Dito de outra maneira, estes países poderão abastecer-se de comida barata porque eles mesmos a cultivam e não tem que adquiri-la nos “reinos” das multinacionais e dos fundos de investimento. Mas apesar deste dado, a tendência é mais a contrária. A liberalização anima o investimento e o deslocamento da produção para os países do Sul, cujas terras deixam de produzir alimentos para transformarem-se em propriedades onde brotam os agrocombustíveis, as pastagens e as sobremesas das nações abastadas. Essas terras se concentram nas mãos de ricos latifundiários e de investidores enquanto o camponês é expulso do campo. O resto de níveis da cadeia alimentar (sementes, intermediação, manufatura, etc) concentra-se em poucas mãos que ditam as condições, monopolizam os mercados, encarecem os alimentos do consumidor e arrastam o agricultor para a falência. A agricultura e a alimentação como sustentos básicos desaparecem em favor da visão mercantilista: o fim último não é garantir comida nem trabalho, mas sim fazer um bom negócio, não importando quem sucumba por isso.
Esse modelo baseado na exportação ao mercado internacional onde tudo é suscetível de ser cotizado, comprado ou vendido, não só é incoerente porque cria dependência alimentar do mercado exterior e seus preços, mas porque, além disso, cria dependência do petróleo para o transporte e porque a agricultura industrial necessita de abundantes agrotóxicos. Com as revoltas atuais em países como Líbia, novamente o petróleo se encarece o que aprofundará a crise dos alimentos como em 2008. Se consideramos que “mudança climática” e o “zênite do petróleo” são questões da atualidade, resulta ainda mais surrealista encomendar nossas calorias ao ouro negro.
O analgésico milagroso
Em meados de fevereiro, o Banco Mundial comunicava que devido ao incremento nos preços da comida, o número de famintos estava se aproximando do 1 bilhão, quando os últimos dados da FAO falavam em 925 (milhões). Outras 44 milhões de pessoas estão atravessando a fronteira da extrema pobreza porque suas débeis economias familiares foram desestabilizadas pelos preços elevados da comida (6)
A situação é gravíssima, mas os preços seguem aumentando e, em uma economia globalizada, os últimos fenômenos climáticos locais – tempestades na África, geadas no México, secas na China, etc. – se convertem em um quebra-cabeças mundial. Mas atenção, não se trata de um problema de escassez e os rugidos de 1 bilhão de estômagos vazios não são suficientes para que se dê o soco na mesa definitivo que ponha em seu devido lugar o mercado e os especuladores. Foram disparados muitos fogos de artifícios a título de boas intenções. Na recente reunião do G-20, por exemplo, falava-se de uma maior transparência nos mercados, limitação da especulação, melhor informação sobre os cultivos...Em resumo, nada que não tenha se ouvido antes e nada que não tenha resultado em nada, apesar de, no dia 17 de fevereiro, o Parlamento Europeus ter pedido ao G-20 “que se combata em escala internacional os abusos e manipulações dos preços agrícolas, dado que representam um perigo potencial para a segurança alimentar mundial”, além de reclamar “...a adoção de medidas dirigidas a abordar a excessiva volatilidade de preços...” (7).
As propostas de curto prazo implementadas para conter essa situação estão sendo tão injustas como ineficazes, porque se pretende solucionar o erro jogando no campo do mercado e acatando as suas regras em lugar de enfrentá-lo e frear seus desvarios. Nesta direção, por exemplo, a FAO reconheceu que desde julho de 2010 seu objetivo tem sido “acalmar os mercados” (8). Para isso o analgésico empregado por este organismo consistiu em bajular certos países que tinham restringido suas exportações – de cereais, sobretudo – para que as retomassem rapidamente e assim recuperassem o fluxo da oferta que amansaria os preços no mercado internacional.
Cabe registrar que estes países exportadores fecharam suas fronteiras, supostamente para garantir comida a seus cidadãos, primeiro porque as colheitas não foram boas, segundo porque a melhor maneira de não cair na crise de preços internacionais é com produções nacionais. Pois bem, algo que é minimamente normal e mesmo legítimo, foi considerado por muitos como a principal causa da crise de preços dos alimentos, porque sob a lógica do livre mercado estava se manipulando a oferta mundial dessa mercadoria chamada comida.
Mas enquanto estas nações são pressionadas a retomar as exportações e a não armazenar comida para suas populações, ninguém se atreve a denunciar a barbaridade de milhões de toneladas de milho estadunidense destinados à produção de etanol (14% do milho mundial) (9). Isso é assim porque sob o intocável prisma neoliberal dominante, os alimentos não têm porque alimentar estômagos, mas sim são mercadorias que inexoravelmente devem ser cotizadas no mercado, onde terão os preços condicionados, pois o fim último é aumentar os lucros e se estes crescem com os automóveis, que sigam roncando os estômagos.
Pão para hoje e fome para amanhã
Desde julho vem se tentando “acalmar os mercados” e o fracasso tem sido estrondoso. A restauração das exportações de alimentos não apagou o fogo que seguiu expandindo-se diante das notícias de colheitas menores e de fenômenos meteorológicos que só aumentaram a preocupação. Pediram-se concessões aos países exportadores que não aplacaram a crise e, no dia 26 de janeiro, de um modo um tanto desesperado, a FAO lançava um informe (10) com recomendações para que se apertasse o cinto, neste caso das nações importadoras, entre as quais se encontram majoritariamente os pobres. O pacote de medidas se centrava fundamentalmente em um único ponto: que os estados apliquem medidas econômicas e comerciais para reduzir o preço dos alimentos, como, por exemplo, subsídios diretos, empréstimos para o financiamento das exportações, incentivos fiscais, redução de impostos, redução de barreiras alfandegárias e de impostos para importações de comida, insumos, máquinas agrícolas, etc. Algumas destas recomendações – mais próximas à filosofia do FMI e do Banco Mundial – foram adotadas durante a crise de 2008 e alguns países já estão aplicando-as. A Guatemala, por exemplo, no início de fevereiro, anunciou a importação de milho com tarifa alfandegária zero para fazer frente à alta de preços (11).
Logicamente estas medidas debilitarão os cofres das nações que deixarão de arrecadar impostos ou subsidiarão diretamente alimentos com fundos dos orçamentos públicos, o que afetará no médio e largo prazo o financiamento de outros programas e serviços públicos. Para as nações que podem ter problemas com os orçamentos e a balança de pagamentos, a FAO recomenda, leia bem, que recorram aos programas do Banco Mundial e do FMI, o que dá na mesma, que se endividem mais para garantir os lucros brutais que o mercado e seus especuladores estão acumulando com a alta de preços.
Como pode se observar, e como foi repetido à saciedade neste artigo, ninguém fala nada sobre o agente causador da distorção, situado justamente entre os países que produzem e compram comida, que recebem pedidos de sacrifício e de adaptação aos caprichos do mercado, comprometendo inclusive suas próprias contas. As classes políticas destes países, vendo as imagens do Egito ou da Líbia, não se arriscam a sofrer problemas de falta de alimentos e bailam conforme a música.
Enquanto se esperam novos dados sobre os preços da comida, a situação começa a ser sumamente asfixiante e pode derivar em uma crise pior que a de 2008. Por isso, a verborreia grandiloquente tornou-se dispensável e urgem soluções reais e efetivas, porque para a humanidade comer é um verbo e não um substantivo pomposo e demagógico.
(*) Vicent Boix é escritor, autor do livro “El parque de las hamacas”, e editor de Ecologia Social da revista Belianís (Espanha).
NOTAS
(1)http://www.europarl.europa.eu/RegData/seance_pleniere/textes_adoptes/provisoire/2011/02-17/0071/P7_TA-PROV%282011%290071_ES.pdf
(2) http://www.elparquedelashamacas.org/html/diosmercado.html
(3) FAO: “Los mercados de futuros necesitan algún tipo de regulación”
Roma, 23 de junio de 2010.
(4) http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//TEXT+TA+P7-TA-2011-0006+0+DOC+XML+V0//ES&language=ES
(5) FAO: “Los precios mundiales de los alimentos alcanzan un nuevo
récord histórico” Roma, 3 de febrero de 2011.
(6) http://www.europapress.es/epsocial/noticia-numero-personas-sufren-hambre-cronica-acerca-mil-millones-2011021614184.html
(7)http://www.europarl.europa.eu/RegData/seance_pleniere/textes_adoptes/provisoire/2011/02-17/0071/P7_TA-PROV%282011%290071_ES.pdf
(8) FAO: “Puntualización por el Director General de la FAO” Roma, 27 de
enero de 2011.
(9)http://www.elperiodico.com/es/noticias/opinion/20110110/agrocarburantes-como-donde/657156.shtml
(10) http://www.fao.org/fileadmin/user_upload/ISFP/ISFP_guide_web.pdf
(11) http://www.agroinformacion.com/noticias/23/industria/34103/guatemala-importara-maiz-y-harina-con-arancel-0-para-hacer-frente-alza-precio.aspx
Tradução: Katarina Peixoto
Jornada Nacional de Luta das Mulheres
Letra Viva MST INFORMA
As mulheres da Via Campesina fizeram uma Jornada Nacional de Luta das Mulheres em referência ao dia 8 de Março - Dia Internacional da da Luta das Mulheres -para denunciar a extrema gravidade da situação do campo brasileiro.
Foram realizadas mobilizações em dez estados, como atos, marchas e protestos em empresas e rodovias. O grito feminista das mulheres camponesas contra os agrotóxicos e contra a violência contra a mulher ecoou pelo Brasil. Mais de 15 mil mulheres já deram o recado: contra os venenos na alimentação e contra a opressão na vida cotidiana. Leia o que aconteceu em todos os estados na Página do MST: http://www.mst.org.br/jornada- de-lutas-das-mulheres-2011
O agronegócio é a combinação entre latifúndio, capital financeiro, indústria química e metalúrgica, financiamento público e mídia. Baseado na produção em forma de monocultura, o agronegócio é o novo rosto do latifúndio. Mantém a lógica de produção em grandes extensões de terras – para isso, concentrando cada vez mais; péssimas condições de trabalho, devastação dos recursos naturais, trabalho escravo e produção para exportação.
Essa lógica provoca a expulsão do campesinato e de populações tradicionais das suas terras, a contaminação dos trabalhadores e trabalhadoras e o aprofundamento da crise ambiental e das mudanças climáticas. Esse atual modelo de desenvolvimento para o campo visa manter um padrão de produção e de consumo ambientalmente insustentável e socialmente injusto.
O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo desde 2008. Em 2009, o país consumiu 1 bilhão de litros de venenos. Se dividirmos essa quantia por habitante, teremos 5 litros de veneno consumido por habitante por ano.
A vida no campo e a produção de alimentos estão ameaçadas com o desaparecimento de sementes crioulas, a perda de biodiversidade e a ameaça a segurança alimentar em virtude da liberação comercial de cultivos transgênicos, do uso de agrotóxicos e da expansão das monoculturas de exportação.
Além disso, o controle da cadeia produtiva alimentar pelas grandes transnacionais ameaça a soberania alimentar e a saúde da população Esse modelo de desenvolvimento é devastador.
Financiamento público
O governo tem se tornado um forte aliado do agronegócio e da indústria dos agrotóxicos no Brasil. Além do financiamento público para as empresas, o governo fortalece esse mercado por meio de incentivos fiscais com a isenção de 60% dos impostos.
O financiamento e a isenção de impostos é a mão do Estado garantindo o aumento do uso de venenos na agricultura brasileira. Mas outros fatores, como a falta de rigoroso cumprimento da legislação ambiental e sanitária, incluindo a fiscalização e das ações das empresas de agrotóxicos e seu uso, contribuem para que isso se fortaleça.
Por isso, as mulheres se mobilizaram para apresentar uma alternativa para a produção no campo, que é a agroecologia. Esse modelo tem como base a pequena propriedade, da Reforma Agrária e da agricultura camponesa cooperada, para a produção de alimentos saudáveis e preservação da a biodiversidade. A terra, a água e as sementes são bens da natureza que devem ser utilizados a serviço dos seres humanos e de toda a sociedade.
Para enfrentar esse quadro de contaminação da população e destruição do ambiente, a Via Campesina propõe as seguintes medidas para a sociedade e para o governo:
- Que o Governo Federal crie a Lei Federal que proíbe a Pulverização Aérea de Agrotóxicos: Lei Zé Maria do Tomé
- Que os órgãos governamentais e jurídicos (IBAMA, ANVISA, etc.) cumpram de fato o seu papel de monitorar e de punir as empresas que cometem irregularidades e banir venenos já proibidos em outros países;
-Suspensão de todos os incentivos fiscais para a produção, comercialização e utilização de agrotóxicos e pelo fim de créditos subsidiados para as empresas que cometem crimes ambientais e sociais;
-Divulgação e ampliação dos estudos e pesquisas existentes nas Universidades, como forma de medir os impactos sociais e ambientais e esclarecer a população sobre os riscos dos agrotóxicos na saúde e no ambiente;
-Suspensão da produção, comercialização e utilização de agrotóxicos no Brasil;
-Recuperação ambiental das áreas afetadas pelos agrotóxicos;
- Proibição imediata da produção e comercialização de produtos transgênicos;
- Desapropriação das terras com crime ambiental e destinação imediata para a Reforma Agrária;
- Créditos de apoio para a produção agroecológica de alimentos produzidas pela agricultura camponesa.
Os movimentos sociais do campo mantêm o comprometemos de lutar e denunciar permanentemente todas as formas de violação dos direitos e crimes cometidos pelas empresas transnacionais.
Secretaria Nacional do MST
Assinar:
Postagens (Atom)